Arte em Linha Recta

Monday, March 21, 2005

Carta a Rebecca Horn



Cara Rebecca Horn,

Ao visitar a tua exposição no C.C.B. deparei-me com um conjunto de instalações e desenhos que serviram para confirmar a imagem que tinha de ti, enquanto um dos nomes de referência das artes plásticas deste século. Porque em relação à tua imagem própriamente dita, ou seja, à tua aparência ou fisionomia há de facto muito para dizer...Para além de uma magreza pálida que sobressai pelo contraste dessa enorme cabeleira vermelha, és dotada de um estilo muito peculiar. Como sabes essa estética capilar já tinha sido explorada por outra rival (a Jeanne-Claude, a ilustre companheira de Christo ), que por sua vez, tem utilizado o mesmo tom cromático para dar forma aos seus projectos megalómanos (vd. "The Gates" http://www.christojeanneclaude.net/tg.html). É claro, que só faz sentido traçar comparações dessa ordem, porque a tua obra é totalmente distinta da arte pública concebida por Christo e Jeanne-Claude.
Continuas de facto com muito bom gosto, não só pela qualidade plástica dos trabalhos que apresentas, mas sobretudo pelas referências que suscitas a autores como Kafka, Fernando Pessoa, entre outros. Desta vez, não incluíste os violinos que vagueiam pelas paredes de um quarto ou o piano virado de pernas para o ar que tem amedrontado o público das tuas exposições. Aliás, nem integraste peças onde o movimento e o som estão de tal forma sincronizados que nos provocam sensações perturbantes, refiro-me mais concretamente àquela instalação onde o movimento dos espelhos circulares acompanham uma sequência sonora de zumbidos penetrantes, colocando o espectador numa situação de fuga perante um enxame de abelhas. Fiquei impressionado com a instalação "site specific" dedicada a Fernando Pessoa, não estava à espera que uma artista de elevado mérito internacional, que já expôs nos principais palcos do mundo da arte, pudesse criar uma das obras que melhor reflecte o espírito de Fernando Pessoa.
Afinal conhecias bem a cultura portuguesa apesar de teres omitido isso durante tanto tempo...Porque é que não me tinhas dito que lias Pessoa às escondidas e ouvias fado enquanto desenhavas no teu atelié? Oh! Rebecca continuas a surprender-me...