Arte em Linha Recta

Friday, March 25, 2005

O que diria Jean-Michel Basquiat sobre J. W. Bush?

Hoje dei por mim a imaginar o que Jean-Michel Basquiat pensaria sobre a política de Bush, e que tipo de imagem escolheria para representá-lo. Provavelmente criaria uma figura bem grotesca, em tons de preto com um enorme elmo, que ocultaria um sorriso sarcástico de quem anuncia um novo ataque ao terrorismo.
Jean-Michel Basquiat foi certamente o artista mais rebelde da História da Arte Americana, e uma das personagens mais carismáticas depois do aparecimento de Andy Warhol...Ele protagonizou, por um lado, o sonho americano ao conseguir tornar-se num dos nomes mais representativos da arte da década 80, e por outro lado, veio introduzir uma nova estética, marcada pela introdução do grafiti e de um conjunto de referências culturais (Haiti, Puerto rico) pouco comuns no universo da pintura ocidental. Mas de facto o que melhor caracteriza o seu trabalho é o carácter primitivo das figuras que Basquiat apresenta nas suas telas, e toda a energia e vivacidade do seu traço, onde, na opinião de alguns, é possível encontrar semelhanças com o Neo-Expressionismo.
Infelizmente Basquiat viveu apenas 28 anos, mas a qualidade da sua obra e o seu carisma, valeu-lhe a realização de alguns documentários e filmes que contribuiram para transformá-lo num verdadeiro mito. Em homenagem ao artista, o Museu de Brooklyn irá realizar uma retrospectiva da sua obra a partir do dia 5 de junho.

Thursday, March 24, 2005

O Autor e a sua obra...

"O autor na sua obra, deve ser como Deus no universo, presente em toda a parte, mas não visível em nenhuma".....Gustave Flaubert.

Tuesday, March 22, 2005

Daniel Buren no Guggenheim de Nova Iorque

Vai inagurar no dia 25 de Março uma exposição de Daniel Buren no Museu Guggenheim de Nova Iorque. O artista irá apresentar obras "in situ", ou seja, trabalhos concebidos para um espaço específico, procurando estabelecer relações de confronto e provocação com o contexto físico e cultural. É preciso não esquecer que estamos a falar de um artista conceptual que tem apresentado obras com um forte carácter político. Por vezes, toma atitudes declaradamente anti-museu, questionando a sua utilidade e acção enquanto instância máxima de legitimação da arte. Embora esta ideia não seja totalmente nova (podemos encontrá-la em Marcel Duchamp), Buren tem desencadeado diversas polémicas que nos tem estimulado a reflectir sobre a mistificação da arte e o seu carácter objectual.

Monday, March 21, 2005

A Ausência de Massa em Anthony Gormley



Anthony Gormley deixou finalmente de lado as esculturas compactas em bronze, para criar um conjunto de figuras de grande leveza formal. De facto, aquelas esculturas que pesavam toneladas, e exigiam a presença de poderosas empilhadoras para as transportar, não eram nada práticas. Desta forma, Gormley não só passou a poder transportar a suas próprias esculturas "debaixo do braço", como libertou financeiramente as instituições (museus e galerias) que organizavam exposições do seu trabalho. Se este escultor fosse português, poderiamos até interpretar esta nova fase da sua obra como uma reacção à política dos "cortes orçamentais". Felizmente Gormley não é português, porque se assim fosse teria que dar aulas no ensino secundário, trocar o seu talento pelos exercícios básicos sobre a linguagem visual (o ponto, a linha, etc.) e esperar no mínimo quatro décadas para expor em centros artísticos internacionais.
Este conjunto de esculturas figurativas têm diversas características que importa destacar: o facto de cada uma das figuras ter uma espécie de identidade própria, na medida em que apresenta determinados traços particulares. Por outro lado, a estrutura de cada peça permite-nos observar em simultâneo, o todo da obra e cada uma das figuras isoladamente, criando uma relação ambigua entre a obra e o espaço que a circunda. Neste caso, o espaço é um elemento activo na construção da escultura tornando-se parte integrante da obra. Para concluir, pensamos que o escultor adquiriu um novo tipo de maturidade plástica, que se revela não só pelo processo de simplificação formal, mas sobretudo pela exploração de um novo conceito.


Rebecca Horn

Carta a Rebecca Horn



Cara Rebecca Horn,

Ao visitar a tua exposição no C.C.B. deparei-me com um conjunto de instalações e desenhos que serviram para confirmar a imagem que tinha de ti, enquanto um dos nomes de referência das artes plásticas deste século. Porque em relação à tua imagem própriamente dita, ou seja, à tua aparência ou fisionomia há de facto muito para dizer...Para além de uma magreza pálida que sobressai pelo contraste dessa enorme cabeleira vermelha, és dotada de um estilo muito peculiar. Como sabes essa estética capilar já tinha sido explorada por outra rival (a Jeanne-Claude, a ilustre companheira de Christo ), que por sua vez, tem utilizado o mesmo tom cromático para dar forma aos seus projectos megalómanos (vd. "The Gates" http://www.christojeanneclaude.net/tg.html). É claro, que só faz sentido traçar comparações dessa ordem, porque a tua obra é totalmente distinta da arte pública concebida por Christo e Jeanne-Claude.
Continuas de facto com muito bom gosto, não só pela qualidade plástica dos trabalhos que apresentas, mas sobretudo pelas referências que suscitas a autores como Kafka, Fernando Pessoa, entre outros. Desta vez, não incluíste os violinos que vagueiam pelas paredes de um quarto ou o piano virado de pernas para o ar que tem amedrontado o público das tuas exposições. Aliás, nem integraste peças onde o movimento e o som estão de tal forma sincronizados que nos provocam sensações perturbantes, refiro-me mais concretamente àquela instalação onde o movimento dos espelhos circulares acompanham uma sequência sonora de zumbidos penetrantes, colocando o espectador numa situação de fuga perante um enxame de abelhas. Fiquei impressionado com a instalação "site specific" dedicada a Fernando Pessoa, não estava à espera que uma artista de elevado mérito internacional, que já expôs nos principais palcos do mundo da arte, pudesse criar uma das obras que melhor reflecte o espírito de Fernando Pessoa.
Afinal conhecias bem a cultura portuguesa apesar de teres omitido isso durante tanto tempo...Porque é que não me tinhas dito que lias Pessoa às escondidas e ouvias fado enquanto desenhavas no teu atelié? Oh! Rebecca continuas a surprender-me...